12 de junho de 2011

Que Cagada


O título pode ser até censurado. E se não for? Será visto com caras e bocas, aborrecimento por parte de alguns e olhos tortos por parte de outros. Ninguém pode sair por aí falando palavrões, coisas insanas, sem causar asco, repúdio ou qualquer outro sentimento um pouco até parecido com tudo-isso-junto (junta tudo numa coisa só).

 Lara tem me ensinado bastante, eu que tenho aprendido pouco, de cada vez. Às vezes eu penso que às vezes deveria ser o contrário. Digo... meu maior medo hoje é a tal responsabilidade sobre o que ela será na reflexão do que é. Talvez tenha demorado tanto para ter (a tal responsa) e de tão mais velho que minha idade aparentava ser, sempre tive. Chegar atrasado ao trabalho sem avisar o chefe? Nem pensar.

Poderia até falar que tenho aprendido comigo mesmo, porque pensa bem, Lara tem 5 meses (quase seis, diga-se passando por aqui neste exato momento) e como, ela, que tanto quis vir pra cá, arrebentar de viver, me encontra assim, ávido por algum ensinamento tosco do rodo cotidiano (como diria O Rappa).

Rir dos próprios erros, aprender com eles. Rir de novo. Acordar, chorar, rir. Rir sempre depois do que pior pode te acontecer. É a vida que ensina, isso sim. Mesmo eu sendo tolo o bastante, para nunca aprender, ou tendo que tomar a lição várias vezes até aprender.

 Que porra é essa? Tenho me questionado, dia após outro, quem é que veio aqui ensinar o que. A tal responsabilidade tá novo batendo na porta. Essa garota é a vida. O que pode ser de tão errado assim?

Daí bate aquele sentimento, não tanto senil, de que palavrões, atos insanos, gargalhadas, choros e esquisitices malcriadas são ruins. Ser autêntico, de repente, virou coisa ruim. Censurada. Talvez, assim, não tão diretamente. Quero dizer, legalmente. O torcer de nariz já basta, o canto do olho com sabor de não. Assim, quem me acha estúpido o bastante por eu dizer um "foda-se" de repente, saí daqui, para em outra página e segue adiante. Nem lê, nem ouve.


Lara ri com os olhos, acredite.

Educação... como vou educar essa criatura!!! Tanta coisa pra pensar e um apito, lá no fundo, para deixar a vela içada indo para qualquer canto, para qualquer vento, aparar só as arestas que tudo fica bom. Como é bom. O que é bom, ou o que é ruim, depende realmente de mim?

Nesse mundo em que arrotar e peidar são um alívio, pois sempre encontro na minha filha um grito de satisfação. Seja por colocar os gases para fora, seja pelo som esquisito e engraçado. Ria... ria enquanto pode e enquanto a sociedade castradora não te leva essa simplicidade de querer voar em meus braços. Levamos isso para a infância, já no ardor da censura materna ou paterna. O que é aqui, nessa idade, um alívio, ali na frente vira reprovação, enigmática, talvez torcedora. 

Cheio de livros sobre como cuidar de bebês, como se eles nascessem com um manual de instruções e fossem todos iguais. Há ainda aqueles que categorizam: Seu filho será assim, ou assado, mas pode ficar no caminho do meio, mas acredite, ele vai passar por isso, isso e isso. Cabe lá até um aviso ou outro, mas é difícil ser humano vir com manual de funcionamento, hein?! Lara veio sem. To aprendendo na marra. Eu já falei, quem tá me ensinando é ela.

Minha garotinha veio sem mesmo. Comparação idiota, mas é como ganhar algo novo com manual e você vai ali, sem ler aquela parada com letra miúda, na base do erro e acerto, das tentativas frustradas (ou não), indo em frente, e chegando ao mesmo lugar onde a maioria estiver se tivesse lido.

Sou daquele que diz que cada um na sua. E como dizia um 'colega' de faculdade: Cada um é cada um. Mesmo assim, entendo pouco aquele que me dá uma cortada no trânsito e chega, ao mesmo tempo, no mesmo lugar. Putz, viajada. Essa é a viagem da viagem dessa aventura legal da lição aprendida de quem veio agora, fresca.

Adoro quando minha filha faz cocô gostoso. Você está com nojo? Do que exatamente? Isso não pode ser sério. Adoro ver ali aquela merda, amarelada, ou não, toda estatelada na fralda dela. É um alívio para ela. Para mim também. Fazer cocô é um dos prazeres do ser humano. Como comer e como fazer sexo. Estou errado? Esfincteres relaxados. Oco do cocô gerado. Paz. Sem gritos ou sussurros. Risada e toda cagada.
A lição para hoje e todos os dias.

Sempre que você fizer uma cagada, na vida pessoal ou na vida profissional ou na vida seja lá qual for a esfera (ou quadrada- porque para alguns a vida pode ser a forma geométrica que quiser), sempre.... dê risadas.
Ria de si mesmo. Ria muito da sujeira. O pedido de desculpa fica para depois. Sem censura sem nada. Façam cagadas, mas dêem risadas.

23 de abril de 2011

Sábado de Aleluia

Diálogo travado hoje no Sábado de Aleluia (sanidade ou loucura? Série Diálogo para a Posteridade - transcrito fielmente de acordo com a pontuação de telefone móvel do ano de 2011)

- Você sabe o telefone da tia Ana Paula?
- 7308-xxxx e 5667-xxxx
- Tá tudo bem cabeça grande?
- Tudo otimo e vc, cabeção?
- Tudo na paz do sábado de aleluia
- E eh dia de Sao Jorge tb! Viva Jorge!
- Quem eh são jorge??? Aquele do Djavan?

- Sao Jorge eh o Santo Guerreiro, na Umbanda eh Ogum. Caetano tem a música Jorge de Capadócia.
- O gum não eh o zagueiro do fluminense?? Guerreiro mesmo
- Nao. Vc separou as silabas. Kkk. Eh Ogum!
- Mas eh assim que fala no rádio
-Mas Sao pessoas diferentes mesmo.
- Sim com certeza um eh zagueiro e outro so um personagem que faz parte da musica do djavan
- O outro (sic) nao eh personagem! Eh um Santo!!!
- Santo ou guerreiro??  Pois não combina muito. E outra coisa capadocia fica na turquia caetano eh baiano djavan eh carioca
- Ele era guerreiro e foi canonizado depois. Deve passar a história dele em algum jornal hj!
- Que esquisito santos que mataram muita gente coisa de igreja
-Vou passear. Sim Sao Jorge viveu na Turquia. Caetano e Djavan viajam mano!
- Que porra eh essa?? Um turco que virou guerreiro da umbanda?? Aqui no brasil? E ainda torce pro curintia?? To fora vou malhar o judas
- Pois eh. E Jesus por acaso era Brasileiro?
- Mas nao estavamos falando do zagueiro do fluminense ??
- Kkkkkkk bobo

16 de abril de 2011

Tudo muda um dia (ou mudam você)


Tudo andava tão esquisito. Saí do mundo relembrando meu passado, que de tão distante, deitou a cabeça no meu ombro. As memórias pesam, ainda mais aquelas que não conseguimos esquecer. A dor no ombro nem deixou dúvidas, nem ao menos de ouvidar das memórias, até a enxaqueca dar as caras.

Ela era linda, toda nua mais ainda, pois era farta. Hoje eu já estou velho, reparo mais no conteúdo, tipo papo careta. Toda despida, ela é um arraso, meu lado bem safado. Corpo grande, assim como o meu. Daqueles que não conseguem ser magros sem serem esquisitos. Curvas no lugar certo, tudo empinado, olhando para nossos olhos. Junto ao meu corpo, um encaixe gostoso.

Às vezes eu quero esquecer o que a gente pode se lembrar. É armadilha da mente, pois a consciência é sempre presente, no passado era, no futuro será. Eu fechei os olhos e aquela boca vinha me olhar... me beija, me fazendo suar.

O alarme tocou e eu levantei . “É cedo para amanhã”, foi o que pensei. “Preciso parar e aproveitar tudo o que me é provido”



Via apenas homens carecas ou com pouco cabelo, com rabos krishnas, rodeados de máscaras que já não me serviam. Ouro, moeda de troca que nada vale mais, é a minha eterna guerra de valores. Enxergava os cavalos cabeçudos e seus cavaleiros bigodudos. Daqui da janela olhando para a praça em forma de losango vermelho-paixão.

Neste dia a vila toda se reuniu. Como pode ela ter crescido em lugar tão esquisito. Minha donzela morava em vila estranha. A comunidade era muito fria, escura, cheia de agonias.

Quando ela entrou pela porta, sorriu para mim. Eu vi naquele rosto branco uma boca vermelha que já não era mais minha. O rosto marcado pela maquiagem leve. Sua singeleza e propriedade. Velha nova senhora que me afligia em sonhos tarados. “Já é hora de deitar? Preciso de um comprimido”

Lá ela vinha com sua roupa de santa, “desculpe, você não me engana”. Toda de branco meio cinza “para mim isso é até triste”, vestido longo, sapato gelo-geladeira “to fora”. Casamento é coincidência, de fatos, de retalhos, de esquisitices. Naquele dia, tentei me procurar aqui dentro de mim, vi que eu me mudei daqui.

Era a mulher do dia. Maquiagem para disfarçar os traços já estragados por um tempo que chega para todos e também chegou para mim, de forma tão dolorida. “O que dói para você, dói também para mim? Não, hoje o amor que encontro em ti é a dor que encontro em mim”.

Muito velha, já estava na hora de se casar. Eu pensei que sofreria se não viesse e se não a visse, mas o martírio foi ainda maior vendo tudo da primeira fila.

Podia ser o tempo, o dia ou o entardecer que entristecia em mim o desejo que um dia floresceu. “Toda flor murcha”, minha avó dizia.

10 de abril de 2011

Para Celebrar


Dizem que os fins justificam os meios. No meu ponto de vista, os fins podem apagar um pouco do brilhantismo do caminho. A minha preferência é por separar o começo, o meio e o fim. Coisas segmentadas servem para facilitar o pensamento e a digestão. Se o problema é difícil, que o dividamos em várias partes para comê-las uma por vez.

Dona Anna impregnou na minha memória histórias incríveis em todas as tardes que voltava da escola e deitava minha cabeça em seu colo. Ela coçava minhas costas. Com unhas pequenas, mas com movimentos graciosos.

Ela chegou bem navegada, fugindo da Europa, como milhares iguais a ela. A guerra arrasou sua consciência e marcou sua existência por inteiro. A vida é mesmo um campo de concentração. Quando você menos espera, o gás entra pela fechadura, você fecha os olhos e dorme para acordar no outro dia e fazer coisas sempre parecidas.

Esta senhora veio ao Brasil com a esperança de viver melhor, pois onde estava as batalhas batiam na porta a qualquer hora. Na realidade, era a morte que sempre atormentava. Explosões estouravam do lado de fora, bem próximas. Eu enxerguei as bombas que ela viu nas histórias que eu ouvi. Eu senti do meu jeito a febre tifóide que ela acometeu, os ratos que comiam restos e que acabavam sendo comidos por gente que também comia baratas.



Lembro até hoje do cheiro de alfazema ou perfume de vó ao entrar em seu quarto. Do seu cantinho religioso, pois assim era ela, funcionária da igreja, fazia hóstia, cantava no coral e ainda tinha paciência para fazer linha dura comigo e com todos os seus.

Foi casada com um Senhor que eu nunca vi e não sei se verei. Sei que um dia de sua vida ele levara um coice no nariz quando era jovem, mas morreu mesmo foi de câncer. Doença dessas antigas e de tormentos atuais. Acredito que tenha sido a vodka. Russos tomam vodka como tomam chá, nunca vi!

Ela chegou ao Brasil muito nova e já com duas filhas. Dona Anna era minha protetora. Servia de escudo para eu fazer pirraça contra meus irmãos. Juro que na base da inocência. Mal sabia eu que isso marcaria a vida dos meus irmãos para sempre. Quando me lembro, porque já me esqueci, me pergunto por que a vida tem dessas. De tirar e por pessoas da existência, brincar com o que achamos certo ou errado e passar tempo cheio de questionamentos sem respostas.

Por essas e outras que Dona Anna me ensinou que a vida é assim. Pintar ovos na páscoa para que ela seja celebrada, misturando mistério em jogo de esconde-esconde no jardim. Ela foi uma senhora bem caricata. Com óculos grandes, dentes da frente bem separados, bochechas caídas, verruga no centro da testa e lenço na cabeça. Era também muito vaidosa, para qualquer foto, tirava seus óculos.

Simpática, morreu de dificuldades provocadas pelo Alzheimer, doença antiga com preocupação corrente e que a deixou sem voz até na alma. Teve seus três dias de luto para poder visitar todos os cantos dos céus e entes queridos, antes de ir embora em paz.

21 de fevereiro de 2011

Janela do Tempo

Daqui desta praça eu observo uma janela que antes eu já nem via. Será a velhice? Já perdi a conta de quantos anos passei por aqui e talvez de tão velho, eu fiquei careca. Lembrei de ter olhado por muitas outras frestas e buracos significantes durante toda a minha vida e delas eu sempre tentei enxergar o que ninguém conseguia. Lá do alto, lá bem no meu passado, eu estava mirando por aquela janela da casa de meus pais, um mundo totalmente diferente.

No ritmo de uma zabumba pulsante que torna meu caminhar constante como um coração vibrante a bater forte. Eu ia e vinha, pelas curvas que imaginava. Aqui, agora um velho, lembro daquela infância quase perdida. Melodia harmônica destoando numa canção que lembro, que sai do comum e me leva a mil variações e possibilidades.

Cheguei até aqui, na praça estou, olhando para aquilo que me inquieta. Essas são as possibilidades, todos os problemas resolvidos em uma só imagem, uma oportunidade do amanhã. Talvez o amanhã do ontem, o hoje. Todo resolvido. Todo explicado. Sei que talvez a maior dificuldade que se pode ter durante uma vida seja, então, no meio do turbilhão, tecer idéias serenas sobre todos, enquanto eu, por exemplo, poderia ter sido mais brando: esperar a chuva, o vento limpar o céu e me devolver com toda velocidade para a realidade.


A ignorância anestésica. De que adianta eu divagar sobre todo mundo agora? O que passou ou o que e quem ficou? No fim das contas, ao término da partida, você pode deixar no papel quase tudo o que sente sem censura, sobre todo mundo, sobre qualquer coisa. Todo brilho no olhar é uma nova oportunidade de nos acharmos no meio da confusão, um caminho por onde anda a verdade. Mesmo que seja a minha verdade.

E esse momento confuso de um senhor de idade careca, talvez sirva para eu enxergar coisas que não imaginava, que vi hoje. A escutar o que já nem ouvia. É possível se redimir de culpa, sem perder a responsabilidade. E sendo ancião, mais perto do fim, dependendo da ponta que se olhe, as coisas podem ficar mais saborosas.

A brisa vai soprar e sair, assim como deve ser, limpar meu céu. Sim, pois aos trancos e barrancos esses alísios arrastam o tempo como se nossa obrigação fosse acompanhar o rumo da maioria. Enquanto todos vivem querendo o conforto das retas, mal sabemos nós que para contornarmos os acasos do nosso mundo as curvas são necessárias.

A incerteza mora na escuridão do que há depois de logo ali. É a grande motivação para a continuação da vida. A possibilidade encontra-se no que você não pode ver ali na curva. A maior certeza continua, talvez, sendo a incerteza de que amanhã será bem melhor.

2 de fevereiro de 2011

Chico e Eu

Eu via Chico com ceticismo quando vivo.
Morto era como um amigo. Meus pais o encontravam semanalmente e eu também. Isso fazia com que eu mantivesse esse contato terreno e com isso, aquecia os corações dos que ficaram nessa realidade paralela.

No hospital, depois da internação para uma cirurgia no joelho, peguei uma infecção. A enfermeira errou a medicação da recuperação na UTI, morri depois de complicações as quais nem senti. Os remédios tiram a dor e o direito. Meu fígado parou de funcionar, os rins, os pulmões e o coração. Nem o Dr House me salvaria. O ritual era de passagem de um lado para outro e a morte em si, comecei a questionar toda essa realidade.

Vi minha tia e meus avós que morreram faz pouco tempo. Vieram me trazer as boas vindas. Parece até piada. Você está numa pior e é bem recepcionado. O que é bom e ruim trocam de lado e como tudo nessa vida, os valores também mudam.

Dizem que quando vamos dessa para uma melhor temos uma experiência que depende de nossa crença. Os muçulmanos teriam suas virgens nos céus, os cristãos aguardariam o dia do juízo, os budistas estariam mais perto do nirvana, os ateus extinguiriam seu “eu” para sempre.


Assim que bati as botas passei a entender que eu simplesmente continuaria a vida em outro lugar e independente de minha crença, nada mais importava. O mesmo ser, os mesmos medos e aflições, menos o peso da matéria, inerte e fétida. O meu contorno é do meu corpo que sempre tive, embora eu não o sentisse como quando vivo. Sim, é meio confuso, mas através de Chico aprendi muita coisa. Cada vez mais, a comunicação se intensificava.

Meu pai, já velho, sempre tomava para si a culpa de minha morte. Minha mãe, cheia de saudades, era choro e vela. Eu existia em Chico, da mesma maneira que sempre permaneci na vida dos meus genitores, a diferença é que agora eles ouviam o que eu tinha a dizer e acreditavam.

Muitas vezes a realidade nos cega. Esse dia a dia eloquente e sujo. E assim deixamos de lado o que realmente importa. Se é que importa. Abdiquei da minha dignidade tapando os buracos da existência com afazeres demais ou de menos. E desviei a conduta do que realmente é existencial e essencial.

Chico e eu entendiamos a realidade como queríamos. As palavras encaixariam sempre em algum contexto para fazer acreditar. O que é real? O que realmente existe? O que é ficção? Isso tudo faz parte de uma realidade que existe dentro de nós. Vivo todos os dias a intensidade que posso, com desejos que busco e nunca fico saciado.


28 de janeiro de 2011

Medo da dor

O medo de sangue nem sempre morou em mim. Minha alma é velha e quando veio para o mundo era pura deste sentimento que hoje me assola. Atualmente esta fobia se estende aos médicos, seus trabalhos, seja quais forem eles, e todo assunto relacionado a doença e sua convalescença.

O medo foi só consequência. Causando pânico qualquer emoção em conexão a médico e a possibilidade de ficar débil.

Eu era apenas um garoto de uns 3 ou 4 anos como todos os outros, tendo problemas iguais ao de todos os meninos da minha idade. Contratempos, desses de meninos. Em uma época em que tudo era possível, só bastava abrir as janelas da minha imaginação. É desde cedo que toda sensibilidade é plantada.

Na realidade, parece que eu nem saberia dizer quando isso tudo começou.

Eu tinha uma hérnia em mim. Precisava operar. Sempre perguntei que raio de doença tinha esse nome. Esta palavra feia que até o dicionário fica meio reticente em traduzir para uma linguagem que fácil entendamos.

A tarde era intensa. Dessas de corridas de bicicleta em casa, com os primos. Lembro tudo perfeitamente. Só fechar os olhos. Minha bicicleta tinha rodinhas do lado da roda traseira como apoio para eu aprender a andar sem cair. De tão rápido que eu estava naquela volta bati no vaso de plantas de casa, pois as rodinhas não me deixaram fazer a curva. Nunca pensei que o vaso poderia ser tão duro

O guidão entrou dentro em mim. A hérnia teve que ser operada as pressas, assim como o rasgo feito. Depois da batida não lembro muita coisa. Sangue, muito sangue. Desmaio. Hospital.

Tenho certeza que os medos e as incertezas, a impureza, nossas loucuras de todo dia, a coragem e a personalidade são construídas nessa fase da infância, entre atos e desatinos. Tempo bom de fabricar as coisas sem maiores receios dos riscos. Onde prevalece a tentativa mesmo que o resultado seja sempre errado. Há graça em quase tudo.



Acordo atordoado no hospital e todo grudado em curativos que demoraram a sair, da minha vista e da minha cabeça. Minha alma foi machucada, cravada em desespero. Da cintura para baixo eu nem conseguia olhar. Tinha dores sempre que queria urinar e morria por dentro todas as vezes que tinha retorno médico.

Vendo o hoje nem dá para imaginar toda essa perturbação. Parte dela eu venci vendo o parto de minha filha. A outra metade é bem viva, aparece de tempos em tempos. Me faz ficar inerte. Vejo ela neste berço e de outro lado todo esse amontoado de emoções . Tenho esse pavor excêntrico, que embrulha o estômago, destes que poucos têm. Pessoas estranhas, receios esquisitos.
Esta fobia se desenvolveu aos poucos e muitas vezes parece maior do que eu.

As vezes é complicado voltar para trás, embora haja mais coisas boas do que ruins para contabilizar. Melhor  é sempre continuar em frente, tentando fazer um hoje modificado. Mesmo que seja por um instante, feliz, sem qualquer tipo de dor. Na tentativa de eliminar o que te mata da melhor forma possível.

Como voltar no tempo e poder viver tudo mais intensamente e de uma forma um pouco diferente?

25 de janeiro de 2011

Clone de um salto

Acordei todo injuriado. Todo suado. Tive um sonho esquisito e bem corrido. Coisa que só pode acontecer em outro mundo, lá do outro lado.

Fui parar na delegacia para falar com o delegado, tinha um encontro marcado. Não é que eu me encontrei com a safada, ali de pé, logo ao lado? Ao vê-la tive um troço, fiquei todo engasgado, mas eu não tive dúvida. Era ela, toda nua. O que fazia aqui a ladra? Quis pular no seu pescoço, torcer todo o seu corpo. Com toda essa raiva conseguiria sem muito esforço.

Eu sabia, dentro da bolsa dela estava o meu celular clonado. Perguntei para ela, quem é clone de quem aqui minha senhora? Ficou muda, a velha descarada. Clones existem aos montes, aqui e ali, eu refleti.

Os guardas ainda ficaram lá, me olhando sem piscar. Sem entender nada. Pensando o louco ser eu, de certo, ou que a dona era digna de comigo estar casada. Só poderia ser brincadeira toda essa marmelada. Ela veio para reclamar (maus tratos... me danei). Não vou pagar pensão. Isso, não.

Digo a vocês aqui presentes, ela ficou do lado da porta, inerte, com cara de gatuna esperta, fazendo charme, jogou a bolsa para o delegado. De fato, ele ficou ali também parado. Não entendeu nada, mas viu que ela queria meter a mão na grana, minha ou dele. A que vier primeiro. Delegado é abonado, que seja ele o primeiro.

Gritei bem alto: “roubou meu celular, roubou meu celular”. Segura a ladra, ladrão, guarda e delegado. Que droga, os policiais não se mexem. Sim, ela roubou meu telefone e agora o discurso é que ela queria apenas clonar. Como podem acreditar?

Se eu te pego na esquina, vou te acertar um pé na bunda, mas como te encontrei na delegacia, vou te dar um tapa na fuça. A descarada ainda ousou dizer uma calúnia, pegou um dos guardas para cristo.

No final das contas, nada de me ajudarem. Dois deles ali parados mais o delegado. Grito “assalto em Salto” e em um salto só eu passo por cima do balcão e recupero a bolsa. Quero colocar meu telefone no seu devido lugar que é no meu escutador ou no meu bolso. Isso aqui minha querida, velha sacana, safada e pervertida, é para EU falar e alguém escutar.

Pulei mesmo, peguei a bolsa e corri. Os guardas até entenderam, seguraram a moça e eu consegui fugir. Logo mais, daqui a pouco, eu volto a dormir.